A Crônica como memória viva do Brasil: entre imprensa, literatura e educação

Atualizado: 11 de mar.

O gênero literário das crônicas surge, tradicionalmente, no Brasil, nas páginas do meio de
comunicação mais utilitário e comercial que há: o jornal. Seu espaço sempre foi cultivado
nas colunas dos veículos em troca de uma remuneração em dinheiro, e seu caráter
cotidiano acabou, ao longo da história, contribuindo para a construção de um estereótipo
acerca do campo literário. Há a ideia de que as crônicas são, na verdade, uma espécie de
comentário ligeiro, fácil de ser lido, sobre um acontecimento qualquer. Não são todas as
pessoas que compartilham desse pensamento, no entanto, para um gênero de tamanha
importância, tal como a crônica, o brasileiro, de forma geral, segue dando pouco valor para
esse espaço literário e melhor dizendo, pouco reconhece, o mesmo, o potencial dessa
literatura no processo de formação e de desenvolvimento educacional.
Quando estudada, a crônica já se encontra em posição menos privilegiada se for comparar com outras literaturas. Justamente pelo fato do cronista publicar em veículos de imprensa, o arquivamento e o resgate desses textos se torna mais difícil, visto que a mídia é volátil e que esses registros são facilmente perdidos. Apesar dessa dificuldade, desde meados do século XIX, momento de estabelecimento do gênero no Brasil, diversos escritores vêm utilizando o espaço jornalístico como forma de intervenção para manifestar vivências e pontos de vista. Geralmente, são textos que relatam situações cotidianas de forma mais enxuta, com um linguajar menos complexo. Mas essa percepção também muda a depender do leitor. Afinal, ao entrar em contato com essas obras, depreende-se que há, por trás da sua simplicidade, uma infinidade de críticas e reflexões profundas sobre as mais diversas pautas vivenciadas pela sociedade da época.
Ao longo do tempo, esse espaço aparentemente modesto se revelou como terreno fértil
para grandes escritores. Entre os primeiros que se dedicaram ao estilo, temos José de
Alencar e Machado de Assis como grandes nomes do gênero. Um pouco à diante, surgem,
então, gerações valiosas, que contam com a contribuição de Cecília Meireles, Manuel
Bandeira, Rubem Braga, Antônio Maria, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e
mais inúmeros intelectuais que refletiram a respeito dos costumes sociais brasileiros,
navegando por importantes períodos históricos do país. A crônica, pela originalidade e
essência, também, representativa, é um instrumento e arquivo que favorece para o
conhecimento da própria história.
Memória, arquivo e permanência
Na avaliação de Guilherme Tauil, atual editor do Portal da Crônica Brasileira, a identidade
do brasileiro possui importante influência na formação das histórias em crônicas. “Mesmo
sem intenção, a crônica registra o cotidiano e as reflexões do país. Nesse sentido, servem
como amostra de certo espírito de época, mas é preciso cuidado ao fazer essa
aproximação, porque crônica é literatura, e literatura é ficção.”, diz. Tauil é cronista, mestre
em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e, ao longo de sua trajetória, vem
desenvolvendo diversos trabalhos de interpretação e resgate da cultura brasileira, não só
através da academia, em seus artigos, como também nas plataformas digitais. Representa
um exemplo de aspiração ao resgate e permanência do gênero no Brasil. No Portal, o pesquisador conta que participa de um trabalho coletivo que cai nas mãos de
uma equipe pequena, mas aguerrida. Guilherme reporta que os autores chegam aos
poucos e que, além do trabalho de edição, é necessário lidar com desembaraços
burocráticos, como questões relacionadas aos direitos autorais e herança. Por esse motivo,
relata, muitos autores “óbvios” acabam ficando de fora. De qualquer maneira, quando se
fala sobre os mecanismos de resgate das crônicas brasileiras, principalmente as páginas
publicadas nas décadas de 1950 e 60, o Portal da Crônica Brasileira se enquadra
perfeitamente como um dos maiores acervos literários do país. O projeto nasce no Instituto
Moreira Salles e reúne esses textos em sua plataforma digital, possibilitando mais
visibilidade à literatura e incentivando a produção de novos cronistas contemporâneos. Nesse aspecto, a dissertação de Tauil, Vento Vadio: estudo sobre as crônicas de Antônio
Maria, se insere com grande importância no cenário de preservação e estudo do estilo.
Falar de Antônio Maria, é falar sobre, justamente, a posição de menor privilégio ocupada
pelas crônicas. Suas obras se encontravam dispersas e fora de catálogo, além de ter sido o
único cronista de sua geração que não publicou livro. Como cita o pesquisador, “as
questões estruturantes de sua obra ficaram pouco expostas ou mesmo ignoradas”. A partir
disso, o estudo faz a reconstituição da vida de Maria, corrigindo informações anteriores e
reestruturando a sua contribuição para a formação do gênero, sobretudo na década de
1950.
Formar leitores é preservar o gênero
Esses exemplos de preservação linguísticos e literários representam uma ferramenta de
fundamental importância no reconhecimento das crenças, costumes, saberes e até mesmo capacidades adquiridas pelo ser humano como membro da sociedade. No caso do Brasil,
sabe-se que há um histórico extenso de dificuldades com o sistema educacional básico e
superior, precisamente pelo impacto social estrutural que o configura nacionalmente e as
ressonâncias do colonialismo e da escravidão. Ao apoiar-se na Literatura como um recurso
facilitador no processo de aprendizagem, é relevante pontuar que o gênero das crônicas se
insere como um recurso nesse sentido, na medida em que desperta a imaginação, a
autonomia e desenvolve o senso crítico dos leitores.
Como disciplina, a ciência literária desenvolve a capacidade de humanização e
sociabilidade dos sujeitos, ao passo que os expõe com o que é criativo, despertando
sensibilidade, emoção e transcendência para o que é a sua própria realidade. Além disso,
aproximar as crianças e os jovens dos textos consiste em um convite à liberdade de
expressão e em um estímulo à compreensão dos diferentes sentidos das coisas. Em
entrevista, Tauil pontua que o papel da crônica na formação dos leitores no ensino básico é
indispensável. “Geralmente, a criança aprende a ler prosa com as fábulas. A crônica pode
ser o passo seguinte, mais maduro, em direção ao mundo da literatura e da imaginação. Ela
é o palmo de texto ideal para aguçar pontos de criatividade, de vocabulário, de narrativa. É
curta, tem linguagem fácil e é um arcabouço simbólico próximo à realidade do leitor”,
explica.
Em artigo sobre a utilização da crônica como instrumento didático-pedagógico, Aprendendo a gostar de ler, produzido no Projeto de Implementação Pedagógica do Colégio Estadual de Iporã - PR, Leonor Brito e Carlos da Silva propõem o gênero discursivo como objeto atrativo para o uso em sala de aula, considerando a crescente preferência apresentada pelos jovens para utilizar o celular quase como forma exclusiva de leitura. A era digital e a plataformização vieram com força na última década e se penetraram nas mais diversas áreas da educação, trazendo contribuições significativas, mas também uma quantidade notória de consequências para as gerações Z e Alfa. Por esse motivo, falar sobre pedagogia e melhorias políticas nas bases educacionais, exige a consideração do advento da tecnologia na contemporaneidade.
O estudo pontua que a leitura não é uma experiência meramente resumida em esquemas
cognitivos internalizados, e sim um processo de uso da linguagem que possibilita a
interação entre as pessoas, por isso a importância do professor dar ênfase em desenvolver,
no aluno, o gosto pela leitura. O fato de haver uma gama de cronistas brasileiros que
trabalham temáticas cotidianas com comicidade, humor e naturalidade em diferentes meios
de comunicação, demonstra como o gênero se caracteriza como opção mais
potencialmente atrativa para as gerações mais novas.
A partir da apresentação das obras de Luís Fernando Veríssimo aos alunos do 9 ano do
Colégio, os analistas concluíram que é importante refletir sobre o tipo de leitura oferecida ao
aluno em cada momento de sua formação, pois, apesar de haver coerência na escolha de
inclusão dos clássicos na educação, é fundamental que a atratividade dos materiais
também seja considerada. Nesse aspecto, as crônicas permitem a entrada em um universo
cultural vasto, que explora a imaginação sem deixar de lado a prática da língua materna e o
seu estudo, mesmo que indiretamente.
Ao destrinchar o histórico da Literatura do Brasil, mergulha-se em um repertório vasto de
obras e autores, onde se encontra uma boa escrita para qualquer gosto. O mesmo se aplica
para os textos em crônicas: de Clarice Lispector, mulher de opinião firme, com reflexões
profundas acerca do eu, até Rubem Braga, que traz um olhar poético ao passar da vida, há
um acervo que deve ser cada vez mais preservado, valorizado e um legado que não deve
servir só de vitrine.
Em momento final da entrevista, Guilherme pontua não saber dizer seu palpite a respeito do futuro da crônica. “Procuro saber o mínimo do futuro”. Saber mesmo, nunca saberemos.
Mas, manter a cabeça erguida diante de cenários turbulentos está no sangue do brasileiro.
Que esse povo siga na criação artística através de peças literárias que exprimem a
essência do país, na forma mais pura: diversa e cheia de riqueza!





Comentários