Clarice em Todas as crônicas: o retrato íntimo do cotidiano de um Brasil em sufoco

Atualizado: 11 de mar.

Clarice Lispector foi uma das escritoras e jornalistas mais influentes do século XX, de origem russo-judaica, cedo naturalizada brasileira. Autora de romances e crônicas, é conhecida por ser uma contadora de histórias cotidianas e simples, mas com abordagem de temas psicológicos profundos. Entre os anos 1967 e 1973, a autora tinha seus textos publicados no Jornal do Brasil, e, em sua coletânea “Todas as crônicas” (Editora Rocco, 2018), a íntegra de Clarice como cronista é reunida em um só volume. São mais de 700 páginas com uma centena de textos que exploram o dia a dia da escritora, tratam de pessoas amadas, situações cotidianas e chegam até manifestações políticas diretas.
É válido contextualizar o quadro social e político em que o Brasil se insere na época da publicação dos escritos de Clarice, pois isso oferece um parâmetro mais claro para a visualização de algumas de suas críticas. Nas décadas de 1960 e 1970, o país passava por momentos de turbulência com a passagem do regime democrático para a ditadura militar. Isso se manifestou não só entre escritores, mas entre agentes do corpo social como um todo, em uma gama de sentimentos que levou à construção de obras sobre as revoltas experienciadas como forma de resistência.
Esse momento histórico designou um dos auges das publicações das crônicas de Clarice, mas ela se manteve produzindo por muito tempo. Em seu prefácio “Nem uma vírgula”, apresenta-se a escritora como cronista, alguém que, a partir daquele momento, rompe com a tradição da crônica corrida e levanta temas como a relação mãe-filho, as revoltas contra a resignação, os desvios do pensamento e a busca do eu por meio do cotidiano. Importante pontuar que a autora publicava seus pequenos textos no Caderno B do jornal. Clarice escolheu Marina Colasanti para ser a responsável pela produção do texto introdutório de “Todas as crônicas”, que era uma grande amiga e colega de profissão. De forma a tentar conhecer melhor a cronista, já é um primeiro passo saber que um dos seus pedidos constantes era que os revisores da época não mexessem em suas vírgulas. Marina descreve: “Minha pontuação, disse ela mais de uma vez, é a minha respiração. E durante todos os anos que durou sua presença no Caderno B, Clarice pôde respirar tranquila, nem uma vírgula foi tirada do lugar”.
Ao ler os textos da coletânea, é possível captar a linguagem, ao mesmo tempo única e detalhada, utilizada por Clarice. Ela explora o vocabulário da língua de forma a ser capaz de relatar os casos mais simples do cotidiano com detalhes, profundidade e fidelidade ao que parece querer transmitir ao leitor.
A exemplo da obra “Amor Imorredouro”, a escritora relata diretamente sobre a sua experiência no jornal. Ela diz: “Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica. E, além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de escrever para ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional, sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito. Embora uma amiga médica tenha discordado: argumentou que na sua profissão dá sua alma toda, e no entanto cobra dinheiro porque também precisa viver. Vendo, pois, para vocês com o maior prazer uma certa parte de minha alma – a parte de conversa de sábado.”
Seria uma espécie de evento canônico, daquele que quase todos passam: a sensação de insegurança ao entrar em um trabalho novo. É um sentimento conhecido e até mesmo esperado. Ao prosseguir com a história, porém, o leitor já se vê dentro de uma reflexão muito maior: o que a escrita representa para a autora e como não perder a essência ao ver sua forma de expressão como um produto a ser vendido. Ao longo da mesma crônica, Lispector também reflete sua dúvida em saber o que realmente interessa às pessoas e, mais subjetivamente, ao homem. Navega em um diálogo que teve com um taxista e retoma a naturalidade dos acontecimentos rotineiros. No desfecho, finaliza sua crônica dizendo: “Mas acho que não interessa”. Abre-se, então, um leque de possibilidades para se pensar. A depender dos atravessamentos que atingem a vida do leitor, ele volta seu olhar para uma reflexão social acerca do trabalho e do sistema. Em outro cenário, direciona sua reflexão para uma dimensão psicológica do ser – ou mesmo filosófica. Isso tudo se extrai das crônicas de Clarice com muita fluidez e leveza.
Em outros momentos, a cronista também usa seu espaço no jornal para fazer manifestações políticas diretas e expressar parte de suas insatisfações pessoais. Na crônica “Daqui a 25 anos”, a temática central é o futuro do Brasil. Ao citar os movimentos caóticos que o país vive e as mostras de maturidade política que o povo tem dado, o texto explora, não a previsão da autora, mas o seu desejo: um Brasil sem fome. Nessa linha, Clarice não perde a oportunidade de demonstrar sua indignação contra o conceito de estudantes “excedentes” em sua “Carta ao ministro da Educação”. De certa forma, o texto se afasta do formato de seu gênero costumeiro. A carta é publicada em seu espaço no jornal e faz críticas diretas ao ministro e ao presidente. Em: “Não estou de modo algum entrando em seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto. Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa”; percebe-se o posicionamento claro da escritora, tal como a sua manifestação.
E assim Clarice segue até certo ponto de suas escrituras: contando partes e recortes do seu dia a dia com a família, amigos e até desconhecidos, tratando da profissão, das diferentes posições que ocupa em sua vida e manifestando suas dores e sentimentos por meio do seu espaço jornalístico. A voz narrativa clariciana colocada nas páginas do Jornal do Brasil representa parte do que era o país naquela época. É interessante poder se debruçar, mesmo que com certa dose de distância, sobre o dia a dia dos brasileiros e viajar dentro da metalinguagem que Lispector mobiliza.





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