Os cascos e as carícias do prazer de incomodar


Já se ouviu falar de uma mulher que escrevia e vivia quase em exílio voluntário, rodeada por dezenas de cães, e que convocava Deus pelos mais diferentes nomes, como “O Mudo Sempre”, “Sorvete Almiscarado”, “Lúteo-Rajado”, “Querubim Gozoso”, “Caracol de Fogo” e “Relincho do Infinito”. A performance não era caricatural. Tratava-se de Hilda Hilst.
Poeta, dramaturga, ficcionista e cronista, Hilst construiu uma obra marcada pela transcendência constante entre o carnal e o sarcasmo dos atos cotidianos. É nesse ínterim que se insere Cascos & Carícias, conjunto de crônicas originalmente publicadas na imprensa nos anos 1990.
O volume se compõe de mais de cem crônicas escritas em prosa íntima e teatral. Os relatos sobre o cotidiano são subvertidos por denúncias ácidas sobre convenções morais e políticas. A autora, que por décadas declarou que queria ser lida por um público amplo (e lamentava sua pouca popularidade), encontra, nas crônicas, um interlocutor mais capaz de conjurar debates literários sobre questões existenciais profundas.
Diversos textos do livro examinam a precariedade ética da vida pública, a banalização do discurso político e a mediocrização cultural. A crítica se estrutura por meio de ironias contidas e de um tom que se aproxima de um ensaio confessional. Não obstante, emergem passagens em que a escritora revisita a própria trajetória intelectual, momentos nos quais o pensamento se expande sob a forma de um quase monólogo dramático.
Assim, Hilst nunca se acomodou dentro ao consumo fácil. Em vida, a literata muitas vezes se viu mal-interpretada, reduzida a rótulos ou vista como hermética demais. A consagração, no entanto, aconteceu de modo tardio e paradoxal. Foi apenas após sua morte e mediante a reorganização editorial de suas obras, que sua posição no cânone passou a ser afirmada com maior ênfase crítica. O reconhecimento institucional veio quando já não implicava risco para o presente literário que antes a ignorava.
Cascos & Carícias talvez seja uma das demonstrações mais explícitas de que Hilda Hilst nunca escreveu “apenas” para preencher tal espaço do sistema. A escrita é organizada por raciocínios que partem de eventos específicos, mas os deslocam para um plano interpretativo mais amplo. A unidade do volume decorre menos de uma narrativa linear e mais da recorrência de temas e procedimentos críticos. Hoje, vê-se que ela sabia o que estava dizendo.





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