A Normal

Escrita em 2008, crônica de Fernanda Young reaparece no debate contemporâneo como reflexão sobre exposição e incompreensão.

Ao publicar “Aos que não nos enxergam”, em 2008, Fernanda Young formulou um texto que, relido após sua morte em 2019, quase vira um testamento. A crônica, inicialmente interpretada como reação a julgamentos superficiais, hoje se impõe como reflexão sobre presença, memória e a precariedade do reconhecimento. O “você” a quem se dirige ultrapassa a figura circunstancial do interlocutor e alcança uma dimensão coletiva, quase histórica. Trata-se da sociedade que consome imagens, mas hesita diante da complexidade humana que as sustenta.
A frase inaugural, “Oi, eu estou bem aqui na sua frente” não solicita aprovação. O problema central não reside na discordância, mas na recusa em, de fato, olhar. Tais palavras ganham outra releitura quando confrontadas com sua biografia. A autora relatou episódios de sofrimento psíquico desde a infância e descreveu o diagnóstico de depressão, já adulta, como momento de esclarecimento. Para Fernanda, o diagnóstico de depressão na vida adulta não foi uma sentença, mas uma organização interna, uma "nomeação da dor", como dizia. Essa busca pela precisão terminológica transborda para sua crônica ao sugerir que a cegueira do outro não é falta de visão, mas falta de coragem para o autoconfronto.
Após sua morte aos 49 anos, no luto público, evidenciou-se um traço recorrente em sua trajetória em que a tensão entre exposição e incompreensão. A crônica antecipa essa condição ao afirmar que preferiria ser esquecida a permanecer ignorada. O paradoxo aborda que o esquecer pressupõe reconhecimento prévio, já o ignorar implica negação. A distinção revela uma compreensão de invisibilização simbólica na esfera cultural.
Essa leitura é reforçada por quem conviveu com ela. O amigo íntimo da escritora, Pablo Diassi, descreve a convivência com Fernanda como um exercício constante de desmontar aparências. “A Fernanda usava o humor como escudo, mas não era leveza vazia”, afirma. “Ela ria alto, mas estava sempre pensando profundamente sobre o que estava em volta.” Em outro momento, ele observa: “O que mais incomodava nela era a inteligência com pedido de desculpas.” A frase sintetiza o conflito que a crônica explicita: a dificuldade social em lidar com alguém que não suaviza a própria presença para caber no enquadramento alheio.
Ao comentar os ataques e incompreensões que ela enfrentou, o Pablo é direto: “Ela nunca escreveu para agradar. Escreveu para não desaparecer.” A afirmação dialoga com o momento da crônica em que Fernanda admite a irritação diante da “cegueira específica” do interlocutor. Não há romantização da incompreensão. Há desgaste. Mas há também lucidez em reconhecer que o outro pode optar por não enxergar não a impede de continuar escrevendo. Ao contrário, reforça a necessidade de enunciar.
Politicamente, essa postura adquire dimensão mais ampla. A cegueira que ela aponta não se restringe a conflitos individuais. Refere-se a uma cultura que prefere caricaturas a análises, ruído a complexidade. Não enxergar o outro, seja por preconceito, simplificação ou desinteresse, implica também não enxergar o próprio tempo.
O desfecho de sua crônica é, talvez, sua maior lição de liberdade: “Já estou lucrando com a nossa relação, só falta você”. Ali, Fernanda Young decreta que sua existência não é condicional. O ganho está no ato de enunciar, no prazer da escrita, na integridade da própria voz.





Vocês vão muito longe com esse estilo sui generis. Incrível como é gostoso de ver, ler e reler a genialidade "darkdown" de vocês...